pessoal | Da fixação de achar que a vida dos outros é melhor que a nossa - e ter a prova do contrário

by - quarta-feira, outubro 25, 2017


Recentemente adicionou-me no Facebook uma antiga conhecida minha. Estava de tal forma diferente que tive de ver várias fotografias para me lembrar quem era. Percebi que sim, conhecia-a, mas continuava sem saber bem de onde - da escola, provavelmente. À memória só me vinham alguns flashes dela a rir e de pessoas com quem costumava estar.

Continuei a explorar o Facebook dela e percebi que se tornara mais atraente e sofisticada que as imagens que guardei na memória. Aparentava estar emigrada e parecia viajar bastante. Na cronologia havia posts de atividades em que participara, comentários em inglês de aparentes amigos estrangeiros, projetos em nome próprio... em quem se teria tornado esta pessoa? Fiquei com a sensação que ela tinha progredido bastante na vida desde a última vez que nos vimos e isso levou a que, por uns segundos, comparasse a minha vida à dela.

É tão inevitável, não é? Mesmo sabendo que nem tudo o que vemos nas redes sociais é verdade e que as pessoas tendem a partilhar só as coisas positivas, caímos na tentação de achar que a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. Obriguei-me a ser racional: eu mal me lembro dela, porque haveria de comparar as nossas vidas tendo em conta 1-2 minutos de análise ao seu perfil? Já para não falar que devem já ter passado 10 anos desde a última vez que a vi, por isso é natural que ela tenha mudado e feito bastantes coisas ao longo desse tempo.

(sem ressentimentos)
Esta tentação de achar que os outros são/estão melhores que nós é das piores ilusões. Com base no que vemos nas redes sociais parece que todos fizeram melhores escolhas na vida, que são mais bem-sucedidos, mais felizes. Mas esquecemo-nos que, entre uma fotografia e outra, poderá ter havido desilusões, fracassos, choros e arrependimentos como também acontece connosco, como acontece com toda a gente. Afinal ninguém é perfeito.

Houve uma altura na minha vida em que parecia que todas as pessoas à minha volta estavam a dar-se melhor na vida que eu. Por mais vitórias que eu tivesse conquistado até então, por mais sortuda que fosse, por mais mérito que tivesse, quando via que uma pessoa conhecida estava a conseguir algo que eu idealizava para mim, sentia que nada na minha vida era suficientemente bom. Sim, eu estava a iludir-me e a ser ingénua e burra a esse ponto.

Nunca foi uma questão de inveja nem de competição - aparentemente estas palavras estão sempre associadas a comparações, certo? -, mas sim de falta de valorização pessoal. Não era um "Ele/a não merece aquilo!" era mais um "Porque é que eu não consigo também?", próprio de quem não estava a ver o panorama todo. Eu dava demasiada importância aos 10% que não tinha em vez de valorizar os 90% que deviam ser suficientes para me sentir orgulhosa. E quem me diz se essas pessoas não sentiam o mesmo em relação a mim? Me admirassem pelo que eu tinha conquistado e achassem que a vida delas é que não tinha sentido? Quão irónico seria isso?

Foi também por causa desta ilusão que, em 2016, decidi mudar de trabalho. Consegui o que ambicionava e nem cabia em mim com tamanha felicidade! Mas quem acompanha este blogue sabe o que aconteceu a seguir: percebi que não bem era aquilo que queria e que, afinal, não estava assim tão mal no outro trabalho. Podem rir, até eu não consigo evitar uma gargalhada! Desta experiência retive um ponto negativo: tropecei nessa ilusão de que toda a gente tem uma vida melhor que a minha e bati com a cara na realidade. Mas houve pontos positivos que superam essa rasteira no meu orgulho pessoal: pelo menos tentei, fui "lá", vi e vivi a realidade real - e não a realidade que eu tinha criado na minha cabeça.

Bem lá no fundo nós sabemos que nós e a nossa vida têm valor, apenas temos momentos em que nos deixamos enganar. E, ao deixarmos que isso aconteça sistematicamente, acabamos por confundir as realidades. Acho que o segredo está em sermos mais otimistas e valorizarmos quem somos, o que conseguimos superar e o que temos no presente como um todo - a tendência é focarmo-nos apenas no dia-a-dia e achar que não podia ser mais banal e desinteressante. Todos temos algo de que nos orgulhar (e não estou a falar apenas de bens materiais), só temos de colocar esse algo num pedestal, porque realmente é precioso a esse ponto, e não permitir que nada nem ninguém lhe roube o brilho.


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3 comentários

  1. Bom post de reflexão ❤ olharmos para nós em vez de iludirmos com a vida dos outros.

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  2. É verdade, é bastante tentador pensar assim... Eu própria acho que estou numa fase de achar que toda a gente está melhor que eu mas de vez em quando lá vem um rasgo de racionalidade como falaste e há que olhar para as coisas boas.:)

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  3. Gostei muito de ler tudo o que escreves-te, acho que tens toda a razão, a mim acontece-me imensas vezes ver fotos de amigas, ou antigas colegas e pensar que estão melhor que eu, mas a verdade é que não sei nada da vida delas, não sei se são felizes, se estão bem, não sei nada. Realmente temos de começar a dar mais valor ao que temos e a nossa vida.

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