reflexão | A idade em que te fartas das pessoas

by - sexta-feira, junho 07, 2013

O título pode ser um pouco radical para as mais sociáveis mas, a meu ver, é inevitável: há um momento na nossa vida em que simplesmente nos fartamos da maioria das pessoas à nossa volta. Começamos a precisar de espaço para respirar, a preferir ter a nosso lado pouco mas bons, a deixar de ter paciência para "tomar conta" de toda a gente, porque cada pessoa é um pequeno mundo que, por vezes, nos consome por inteiro.

Eu nunca fui muito sociável, é certo. Não no sentido de afastar as pessoas, simplesmente não deixava que a maioria se aproximasse demasiado, por isso sempre tive um grupo muito restrito de amigas e um muito alargado de conhecidas/os. Quando penso na razão concluo que é por não ter perfil para, como digo, "tomar conta" de tanta gente: o tempo, dedicação e interesse que é necessário para as conhecer em profundidade, para partilhar os seus problemas, para estar disponível, para lidar com a sua maneira de ser...  
Devido a isso, levo algum tempo a perceber de quem me quero aproximar, quem quero que realmente faça parte da minha vida. É uma "dança" difícil quando se é uma pessoa reservada que leva a amizade a sério, não nos sentimos à vontade para expormos quem realmente somos a qualquer pessoa.

Para mim, as amizades, como relacionamento pessoal, são um pouco como investimentos. Invisto o meu tempo e dedicação a alguém que penso valer a pena, porque gosto dessa pessoa e da sua companhia, e recebo o mesmo em troca. E, como qualquer investimento, uma amizade pode durar ou desfazer-se a qualquer momento, dependendo da dedicação que cada uma das partes lhe atribui. Daí eu dizer que se trata também de uma "dança": é preciso um esforço flexível de ambas as partes para que dê certo.
De repente parece que estou a falar de relacionamentos amorosos, ahahah, mas será que é algo assim tão diferente? A meu ver, pouco mais difere além da forma como vemos a outra pessoa e a medida em que queremos relacionar-nos com ela (a tal linha que separa a amizade do amor), isto porque, de resto, é também fundamental existir confiança, empenho, atenção e paciência - mas decerto que em doses diferentes.

Isto leva-me à principal razão pela qual decidi começar este post: nem todas as pessoas percebem que uma amizade a sério é como um compromisso. Não há propriamente regras estabelecidas, mas há noções básicas a respeitar. Por exemplo: eu posso não falar com todas as minhas amigas todos os dias, nem elas comigo, devido à vida que cada uma tem, mas já não será tão correcto deixar passar meses sem dar sinais de vida. Afinal, importamo-nos uma com a outra ou não? Como já li aí algures pela internet, quem não te procura não sente a tua falta
É com "acidentes" destes que certas amizades se degradam, e tudo aquilo que investimos na outra pessoa, as partilhas feitas e os momentos vividos, vão perdendo, pouco a pouco, o significado, e essa pessoa, outrora tão importante na nossa vida, passa a ser mais uma que "ficou no passado". A vida continua e ela simplesmente já não nos acompanha.

Quando somos adolescentes, este tipo de episódios tem grande impacto em nós, porque as pessoas com quem nos relacionamos são, de certa forma, quem nós somos. É como se não conseguíssemos viver isoladas, e estes dramas dominam a nossa vida. No entanto, com o passar dos anos, outras prioridades são estabelecidas. Não é que deixemos os amigos para último plano, mas passamos a adoptar uma atitude de "só está comigo quem quer", uma certa indiferença, que surge como uma forma de selecção. 
Há tantos outros aspectos que nos enchem a cabeça, há tantas outras coisas às quais nos temos de dedicar, que amizades que não fazem a sua presença ser notada, acabam por ficar para trás. Podemos sentir falta delas, tentar recuperá-las mas, na maioria dos casos, dificilmente voltarão a ser o que eram. Porque, durante esse período de ausência, a vida de cada uma continuou, separadamente, e retomar essa amizade levará muito mais tempo do que o que passou e, no fundo... já não há vontade.

É aí que percebemos que já não vale a pena, que iríamos estar a gastar a nossa energia em vão, a criar expectativas que nos desiludem, tudo para fazer o tempo voltar atrás, quando sabemos que isso é impossível. Chegamos então à lamentável conclusão que o melhor, para nós, é justamente pôr os rancores de lado, preservar as boas memórias, e seguir em frente, separadamente.

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2 comentários

  1. identifico-me bastante contigo nesse ponto de ser sociável, é muito difícil para mim ter uma data de pessoas a quem conto coisas ou que elas contam a mim. é assim simplesmente, eu não conto nem ouço, mas nem por isso deixam de ser amizades, mas não são assim tão íntimas e por isso não sei se muitas pessoas me consideram uma verdadeira amiga. Bem, daqui a nada estou aqui a divagar e não me calo. Também acho que é preciso cuidar das amizades mas também acho que existem pessoas que tu podes estar muito tempo sem elas, mas quando estás voltam as mesmas conversas, os mesmos risos, podem é não existir tantas memórias e cumplicidades para partilhar, o que sem dúvida faz falta, mas há sempre um sentimento e uma empatia, Claro que isto só acontece com um grupo muito restrito. Acho que com a idade (parece que sou muito velha) também existem pessoas que não "crescem" e acabamos por já não nos identificar tanto com elas. Desculpa lá o testamento!:P

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    1. não há nada para desculpar, gostei de ler o teu testemunho! obrigada :)

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