reflexão | Síndrome dos óculos de Alcanena

by - domingo, maio 05, 2013

Eu nunca fui muito sociável e também não me parece que venha a sê-lo no futuro. À medida que os anos passam encontro mais dificuldades em relacionar-me com a maioria das pessoas. Não no sentido de falar com elas, de sair com elas, de me divertir com elas... mas sim em compreende-las e em fazer-me entender.

Já Clarice Lispector dizia: "Cada pessoa é um mundo", e eu digo que, mesmo que dediquemos toda a nossa vida a tentar conhecer e entender esses mundos, iremos fracassar. Isto porque, em tudo o que fazemos, tendemos a colocar um pouco de nós - a nossa forma de ver, as nossas opiniões -, e mesmo quando achamos que somos nós quem tem razão, nem sempre assim o é, porque as outras pessoas também têm as suas próprias formas de encarar as situações e, a elas, o modo como as vêem, parece-lhes ser o mais correcto. Nenhuma de nós é  a "guro da sabedoria", apenas tentamos agir da forma que achamos melhor e, assim sendo, estaremos sempre à mercê de críticas alheias de quem não vê as coisas como nós as vemos.

Mas, para nos orientar, há uma coisa chamada bom-senso. É essa palavra chave que define, com mais ou menos exactidão, o certo e o errado, que nos guia no que devemos aceitar, condenar ou simplesmente ignorar. O problema é que muitas vezes as pessoas esquecem-se da importância dela, olham para os seus próprios umbigos e recusam-se a desviar a atenção para algo ou alguém que não elas próprias, tal e qual como se usasse óculos de Alcanena*.  Tomam-se como donas e senhoras da razão, só elas é que têm direito a pôr e a dispor, só elas é que sabem! Como crianças mimadas que só vêem os seus próprios interesses. Ignoram os mundos dos outros pois só o delas é que interessa.

Há quem lhe chame egoísmo. Eu acho que é mais que isso, é também uma certa insensibilidade aliada a cinismo. Infelizmente a humanidade está cada vez mais contaminada destes e outros defeitos, como um vírus que, quando ataca, incapacita a pessoa de pensar claramente.
E depois perguntam-me porque é que eu sou assim, "anti-social". E eu, com vontade de explicar tudo isto e mais do muito que me vai na cabeça, mas tendo em conta que o mais provável é não ser entendida  acho mais prudente responder simplesmente que já não tenho paciência para pessoas.

*óculos de Alcanena: expressão de gíria popular. Inspirada nas palas que os burros usam nos olhos para olhar apenas para a frente, em sentido pejorativo é usada para designar pessoas que só vêem o que querem.

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4 comentários

  1. Concordo plenamente com o que escreveste.

    Fiquei a saber uma expressão nova...ahah!
    Beijinhos

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  2. Poderia falar tanto sobre isso.. mas na realidade a minha visão dos óculos de alcanena é um pouco diferente da tua :)

    beijinho
    Spring nails( http://myflickalookbook.blogspot.pt/2013/05/spring-nails-inspiration.html)

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  3. Ahah, não conhecia a expressão, mas identifico-me muito com o que disseste.

    beijinhos (:

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  4. Também sou assim, muitos acham que sou difícil de abordar porque me mantenho de propósito à parte. Acho que as pessoas não respeitam os outros, eu tento valorizar todas as opiniões que ouço, mesmo quando não concordo, mas as pessoas parecem estar preocupadas com as nossas falhas e com aquilo que podem saber de nós para usar no futuro. Não confio facilmente e mesmo quando me dou relativamente bem com alguém essa pessoa continuará a saber muito pouco sobre mim. Claro que não tenho amigos aos pontapés, nem sou aquela pessoa que todos vêm cumprimentar sorridentes, não sou popular, mas quem me conhece nem que seja um pouquinho sabe que pode confiar porque eu vou ouvir e calar. E muito sinceramente sou feliz assim, detesto colocar o meu bem-estar emocional nas mãos de pessoas incertas e pouco confiáveis, coloco-o apenas na minha família e namorado, até porque esses sim são os meus melhores amigos.

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