reflexão | Ser 'Santinha'

3.4.13 SARA SILVA 10 Comments

Foi ainda ontem na escola que ouvi alguém, num contexto que já não me lembro, dizer "É uma santinha". Ora, esta expressão tem em mim um certo afeito de aversão, e inevitavelmente começaram a surgir-me uma série de pensamentos em torno disso.

Comecemos então pelo significado. O que é que vocês entendem por uma pessoa, neste caso rapariga, que é "santinha"? Acredito que será o mesmo que eu penso: alguém que é muito boazinha, que nunca se mete em confusões, não faz mal a ninguém, não peca... e depois, curiosamente, há aquele dizer "As santinhas são as piores", como quem diz que fazem tanto ou pior que as outras, mas pela calada. 

Talvez esta expressão me faça tanta espécie porque eu já fui uma "santinha" ao olhos dos outros. Fui-o durante os meus 13/14 anos (e como rótulo que é, acredito que ainda hoje me acompanha) e nunca cheguei a perceber o porquê de as pessoas me verem assim. Para mim, eu era apenas uma rapariga normal que, por ser muito tímida e precavida, acabava por evitar meter-se em confusões. Como tal, nunca fumei, nunca me meti em drogas, não dizia palavrões, não andava a beijar este e aquele, era estudiosa, não alinhava em loucuras, era educada e correcta... este tipo de coisas, porque assim fui educada e achava que assim é que tinha de ser. Isso fazia de mim uma "santinha", ou será que eu era apenas uma rapariga atinada?

Eu acho que o problema é que, principalmente hoje em dia, o que está a dar é ser-se radical. Seguir as regras não é valorizado, o que interessa é fazer disparates a torto e a direito e seguir motes como live young, wild and free e all the crazy shit I did tonight, those will be the best memories. Os americanos trazem-nos coisas muito boas, mas também começam a tentar incutir-nos valores duvidosos. Não digo que a culpa seja [apenas] deles, infelizmente são muitas mais as coisas que proporcionam o surgimento de jovens inconscientes.

Penso que já começam a perceber onde eu quero chegar. Que as "santinhas", apesar de aparentemente serem umas sonsinhas mosca-morta, talvez ainda sejam as pessoas com mais sentido de noção, num mundo em que é fixe fazer-se o maior número de parvoíces possível. E digo aparentemente porque esse rótulo, tal como muitos outros, é aplicado às pessoas pela imagem que se tem delas, e não por quem elas realmente são. No meu caso, eu era uma "santinha" para a escola inteira, mas as minhas amigas não concordavam com isso e achavam que eu era só uma rapariga normal. 

Não estou com isto a querer dizer que toda a gente tenha de ser assim, apenas defendo que se não houvesse este rótulo, este preconceito, algumas "brincadeiras" não chegavam tão longe. Quantas vezes os jovens não são incitados a fazer algo só para não serem vistos como "menininhos/os"? E é a partir dessa simples provocação que começam alguns dos maiores arrependimentos.

Quando olho para trás, admito que talvez tenha sido tímida e precavida de mais em algumas situações e que, por causa disso, deixei passar algumas boas oportunidades. Mas por outro lado, o facto de ter sido assim, ajudou-me a olhar para as situações do lado de fora e funcionou como uma espécie de esfera protectora contra muitos dos disparates que podia ter feito nessa altura. E digo mais: arrependo-me muito menos das coisas que fiz quando estava a ser eu própria - a tal "santinha" -, do que quando tentei ser outra pessoa.

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10 comentários:

Ânia Morouço disse...

Concordo inteiramente com o que disses-te, no entanto por vezes chamar alguém de "santinho/a" pode ser com ironia. Eu sou como tu, nunca fumei, nunca me meti em drogas, não fiz grandes asneiras mas sou um pouco extrovertida, porque se fosse timida e reservada secalhar também me chamavam isso. Não me arrependo de coisas que não fiz e não acho que nunca ia mudar quem sou para me verem de forma diferente.

Tanya disse...

Concordo com o que escreveste!
Também já fui vista como Santinha por ser timida e não me meter em drogas, não beber e não fumar. Fui educada com valor morais, e tenho muito orgulho em mim por ser como sou, e não ser apenas mais uma pita maluca que vai pro bairro alto pra ser apalpada e embebedar-se.
Tal como tu, também acho que essa minha faceta me fez perder oportunidades...no entanto hoje em dia, pessoal da faculdade acha-me timida e "santinha" - não me conhecem tão bem e eu tendo a ser mais reservada na escola only god knows why - mas depois no meu circulo de amigos e na comunidade onde estou inserida é ao contrario XD porque eu aí não sou tão timida, dou valor à minha educação e defendo os meus valores, e não tenho medo de dizer o que penso - e por alguma razão algumas pessoas têm algo contra isso e depois ou dizem mal de mim, ou dizem que tenho um feitio complicado, ou têm uma tremenda inveja de mim que até me mete medo...

Eu acho que quem interessa são os nossos amigos, esses sim sabem exactamente como somos! Os outros que preferem julgar-nos sem nos conhecerem, não valem a pena...

Beijinhos

Teresa disse...

Compreendo perfeitamente o que queres dizer.
Esse termo também me causa uma certa comichão. Até porque é preciso distinguir entre dois tipos de "santinha": as que realmente são boas pessoas, tentam levar a vida de forma responsável, comportam-se com dignidade, levam uma vida normal, divertem-se sem prejudicar ninguém... e as de pau ôco, que só querem dar ares de quem não mata uma mosca, mas a verdade é que são piores que o diabo.
O problema, muitas vezes é que se mete tudo no mesmo saco e confundem-se as "santas".
Eu também fui sempre "a santinha". Ainda agora com mais de um quarto de século de vida sou "a santinha". E se na adolescência tive algumas dúvidas, com o passar dos anos elas foram, cada vez mais, ficando para trás. Sou feliz, gosto de me divertir, faço as minhas maluquices, mas sempre com responsabilidade, respeitando os outros e a mim mesma e fazendo-me respeitar pelos outros.
É certo que quando somos mais novinhos e queremos ser fixes, o ser-se realmente santinha, não é sempre bem visto. Mas acho que com o passar dos anos e com a idade adulta, e mesmo quando se começa a pensar na vida a sério e a fazer planos reais para o futuro, todos gostamos de poder contar com alguém que tenha os pés assentes na terra e não ande constantemente na v1d4 l0k@
Quando olho para trás, sei que podia ter feito muita coisa, mas não me arrependo nem um pouco de ter sido "santinha". Pelo contrário, vejo muita malta "fixe" cheia de remorsos e a colher as consequências de ter sido "fixe".
Não me alongo mais, senão começo a devanear.
Basicamente só queria dizer que percebo a tua posição e no fim de contas mais vale ser santinha do que outra coisa... :)

Sara Silva disse...

sim, às vezes o facto de se ser extrovertida faz toda a diferença.
é muito bom olharmos para trás e vermos que, mesmo apesar de termos tido anos conturbados, não nos arrependemos de nada :)

Sara Silva disse...

gostei muito do teu testemunho porque me identifiquei :)
acho muito injusto algumas pessoas as pessoas avaliarem-nos tão radicalmente só por causa de sermos assim, tal como dizes que no teu caso até têm inveja. não dá mesmo para perceber -.- acho que é a tal lenga-lenga: "preso por ter cão e preso por não ter"
e é verdade: os nossos amigos mais próximos é que têm opinião válida, os outros não interessam!

Sara Silva disse...

muito obrigada pelo teu testemunho, é sempre importante receber o ponto de vista de uma pessoa mais velha! :D
sim, há dois tipos de santinha e é verdade que às vezes há quem confunda, e isso dá origem a que as "santinhas" saiam mal interpretadas, principalmente se forem as boas
e tens razão: é com o passar do tempo que vamos tomando consciência das nossas atitudes e decidir mudar para melhor (o que nem sempre acontece), preferindo ter à nossa volta pessoas mais "sérias". o problema é que algumas pessoas percebem isso muito tarde...
actualmente eu sinto-me bem por ser assim, o problema é de quem tem algum problema comigo :)
beijinhos *

Tanya disse...

exactamente...mas infelizmente há pessoas que automaticamente fazem juizos de valor e acham que têm razão e pronto! naturalmente que cada um forma um "opinião" com base numa primeira impressão, mas acho errado começarmos a dizer mal da pessoa ou assim sem sequer nos darmos ao trabalho de a conhecer como deve ser...enfim!
yep!esses sim sabem o que somos e como somos, e gostam de nós tal e qual como somos! :)

Mariana C disse...

Olá Sara :)

Concordo, também fui santinha no meu tempo de escola só por não querer fazer tudo os que os outros faziam... Claro que gosto de aproveitar a vida, como se costuma dizer, mas sempre com moderação e não fazendo disso o meu estilo de vida, mas sim uma excepção à regra.

Gosto muito dos teus textos!

Beijinhos,
Mariana

http://fashionforelephants.blogspot.co.uk/

Imperfect Mind disse...

Eu enquadro-me no teu texto.
Ainda sou chamada de santinha (sim, ainda estou na escola a aturar putos apesar de ser o meu último ano) e odeio isso.
Chamam-me de santinha apenas porque para além de não fazer asneiras nem essas coisas, não falo com os tótós, ou seja, se tiver de falar é a muito custo e por vezes ainda dou desprezo para não ter de os aturar.
Lá por não ser uma macaquinha que gosta de chamar a atenção a realizar actos indecentes não significa que seja uma santa, longe disso! Mas também não significa que seja uma rebelde que só quer beber e drogar-se e sair todos os dias da semana à noite com vestidos em que quase se vê os ovários e os órgãos internos.
Eles próprios têm uma mentalidade de criança, são daqueles que apenas se dão super bem com quem tem air force branco ou air max, ou pelo menos deve ter uns ténis da Nike, que vestem calças a cair pelas pernas e mesmo assim não usam cinto porque é mais divertido ter umas calças XXL e andar com o rabo de fora, e usam t-shirts ou sweatshirts.
Digo isto porque na minha turma ainda existem rapazes decentes, um deles até se veste como um homem, sapatinhos, calcinhas que não sejam de ganga, quase que vai de fatinho para a escola. E ainda mais, ele é inteligente e sabe falar, ao contrário deles que o gozam por esse simples facto, por ser um "betinho".
O que é certo é que o futuro desses macaquinhos não há-de ser grande coisa, até me admiro chegarem ao 12º ano, claro que com facilitismo e cábulas, e lamento este tipo de situações que apenas querem destabilizar as pessoas que ainda são decentes e muitos deles, na minha opinião, não tinham sequer passado do 9º ano! Mas lá está, existe muito facilitismo, e existe o tal "ensino especial" para aqueles que não têm problemas nenhuns a não ser preguiça de estudar, o que acho super mal.

http://imperfectm.blogspot.pt/

Sara Silva disse...

realmente há pessoas à nossa volta que nos tiram do sério e não dá para perceber! a solução é ignorar, mas é complicado quando isso afecta tanto o nosso dia-a-dia :s
espero que tenhas força para aguentar essas pessoas :)
beijinhos *

Obrigada pelo teu comentário ♡
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