reflexão | Ter para 'ser'

20.1.13 SARA SILVA 5 Comments

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No outro dia, no autocarro, ia sentada à minha frente uma pessoa idosa cujo aspecto me desinquietou. Aqui na Polónia é normal as mulheres dessa idade andarem bem arranjadas (com boas roupas, por vezes maquilhadas, com carteiras elegantes), mas essa era o contrário: as roupas e o saco, a fazer de mala, que levava consigo tinham já alguns sinais de desgaste. Ela não tinha ar de ser uma mendiga, mas também não se parecia com as restantes mulheres.

Eu fiquei a olhar para aquele saco, manchado e desfeito em algumas partes, e questionei-me porque é que ela andava com ele naquelas condições. "Se calhar é o único que tem", lembrei-me, e esse pensamento fez-me recuar no tempo, à época dos nossos avós, quando se vivia e sobrevivia com o pouco que se tinha. 
Lembrei-me da minha mãe dizer-me, certa vez, que quando era pequena, só vestia roupa em condições ao domingo, para ir à missa, e que, no natal e aniversário, recebia meias como presente. Lembrei-me do meu pai a contar histórias da sua infância e a dizer que, quando era mais novo, nem sapatos tinha. Por último, vieram-me à cabeça memórias mais recentes: momentos em que a minha mãe oferecia peças de roupa aos meus avós e eles, humildemente, diziam: "Mas para que é que foste gastar dinheiro nisto? Eu já tenho um/a!". E era assim que dantes se vivia: com um casaco, um par de calças, uma mala... e eram usados durante anos porque assim tinha de ser.

Hoje há fartura: temos 6 pares de calças para não andarmos sempre com as mesmas, temos 8 casacos porque cada um combina com diferentes estilos, temos 4 malas para usar em cada ocasião, temos 10 pares de calçado porque cada um serve para um propósito. E isto no mínimo.

E de quem é a culpa? No fundo acho que não é de ninguém, é o resultado da mudança. Ou porque os nossos pais nos quiseram dar mais do que eles tiveram, ou porque a roupa passou a ser fabricada em quantidades maiores e se tornou mais barata do que há uns anos atrás, ou porque é de má qualidade e tem de ser substituída de tempos em tempos, ou porque fomos habituados a comprar coisas novas com regularidade, ou porque queremos ter tanto ou mais do que os outros têm, ou porque nos sentimos mal ao termos menos que o que os outros têm... é um sem-fim de razões que surgiram de uma geração para a outra. 

Há muito que deixámos de ter coisas apenas pela sua utilidade, mas sim pelo estatuto que elas nos conferem. Vivemos numa sociedade regida por aparências, em que ter um nokia 3310 é vergonhoso mesmo quando só precisamos de um telemóvel para fazer chamadas e mandar mensagens. Venham os androids e os iphones porque se não tivermos um não somos ninguém! E isto é apenas um exemplo, todos nós sabemos como estas coisas funcionam.

Ás vezes, penso se há maneira de contrariar este padrão, mas chego à conclusão que não. Estamos todos dentro do mesmo sistema e, se tentássemos livrar-nos dele, seríamos rebaixados e olhados como loucos. Além de que nem nós próprios conseguiríamos lidar com o facto de "sermos menos" que os outros. 
Vivemos com mais do que realmente precisamos e estamos todos demasiado ofuscados pelos bens materiais para podermos ver o que realmente importa. Nesse sentido, a crise é, definitivamente, benéfica.

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5 comentários:

Sweet Woman disse...

Pessoalmente gosto bastante deste tipo de posts, dão para reflectirmos não só sobre as atitudes dos outros, mas também sobre as nossas.
Infelizmente esta é a realidade com a qual nos deparamos, mas isto também acaba por ser culpa da sociedade que criou uma imensidão de estereótipos e é como que incutisse às pessoas que se comportassem de acordo com os seus padrões o que acaba por fazer a maioria das pessoas terem tudo e mais alguma coisa; serem consumistas no final de contas.
Por mim nem oito nem oitenta, nem como antigamente nem como actualmente, devia de existir um meio termo.
http://sweetwoman.blogs.sapo.pt/

Sara Silva disse...

fico contente por saber isso porque este é dos tipos de posts que mais me dão gozo escrever :)

sim, o meio termo é sempre melhor! e não há muito que possamos fazer para mudar esta mentalidade, mas já seria bom que as pessoas à nossa volta não criassem um clima de desconforto por não querermos fazer parte do rebanho. mas enfim, parece que já nascemos com esta maneira de pensar...
beijinhos! *

Sweet woman disse...

É mesmo, cabe-nos a nós ir tentando controlar o consumismo, pelo menos o nosso.
Sim, foi mesmo uma ótima compra :)
Eu quero imenso ver o primeiro filme, o segundo gostava de ver e o último estou como tu, já para não falar que não aprecio muito filmes de terror, já gostei mais.
Beijinhos.
http://sweetwoman.blogs.sapo.pt/

Concordo mesmo com aquilo que escreveste. Há sempre um bichinho na nossa cabeça que nos pica a comprar mais uma camisola ou mais um par de sapatos só para termos no armário algo mais recente e não ficarmos "atrás" dos outros. Coisas que na maior parte das vezes nem precisamos realmente porque já temos 20 camisolas no guarda-roupa.

Sara Silva disse...

sim, é bem verdade :s cabe-nos a nós controlar essa maneira de pensar...

Obrigada pelo teu comentário ♡
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